Piles of Trash – Exposição Coletiva

Piles of Trash
Um estudo realizado pela Universidade de Princeton concluiu que para os cidadãos mais abastados, é comum ver pessoas pobres como menos capazes, menos especiais ou, pior, nem sequer as reconhecer como pessoas. O estudo em que os investigadores mostraram fotografias de pessoas sem-teto, toxicodependentes e pedintes a indivíduos mais abonados demonstrou que estas imagens não conseguiram estimular áreas do cérebro que geralmente se ativam sempre que as pessoas pensam sobre outras pessoas ou sobre si mesmas. Em vez disso, os estudantes de classes sociais mais ricas reagiram às imagens como se “tivessem tropeçado numa pilha de lixo” (Piles of Trash).
O Fujifilm FIF Viseu promoveu quatro comissões internacionais subordinadas ao tema “Piles Of Trash”. A intenção é fomentar uma ampla discussão em torno da forma como a sociedade ocidental se revê nos cidadãos mais carenciados, aqueles que enfrentam as agruras da escassez, falta de emprego, falta de habitação.
“Piles of Trash” é a visão dos fotógrafos Adrian Dominguez – Espanha, Daniel Seiffert – Alemanha, Gunta Podina – Suécia e John Gallo – Portugal e Reino Unido, acerca deste tema em cada um destes países.

Solar do Vinho do Dão – Ver no mapa

Rua Aristides Sousa Mendes, Viseu

6 Maio a 4 de Junho 2017.
Terça a Sábado: 10h00 – 12h30 e das 14h00 – 19h00
Domingo: 14h00 – 19h00
Encerrado: segunda-feira

Com obras de:

Social Extreme – Richest Facing Poorest

Espanha enfrenta grandes discrepâncias económicas, continua a ser um dos países europeus com maior desigualdade de rendimento salarial [Índice de Gini 2013]. A diferença entre o rendimento dos mais ricos e dos mais pobres cresceu rapidamente nos últimos anos. A riqueza espalha-se em torno da periferia das grandes cidades, tendo Madrid concentrado os três municípios com a mais alto rendimento médio por família: -Pozuelo de Alarcón, Las Rozas e Majadahonda. Os dados foram publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em relação aos indicadores de um Projeto Europeu de Auditoria Urbana: As classes alta e média-alta deslocam-se para os subúrbios, construindo áreas residenciais exclusivas, enquanto o resto das classes, média e média-baixa, vivem num nó de ruído, poluição, turismo e comércio.
No entanto, Madrid é capital de um dos países mais atingidos pela pobreza e exclusão social na EU, nos últimos anos. Lugares que representam cultura, negócios ou folclore popular tornam-se estadias temporárias para os solitários que vagueiam pela cidade. A beleza da noite e as luzes da cidade contrastam com as pessoas pobres que descansam nos bancos, nos parques ou mesmo no chão. Em Espanha estima-se que mais de 11 milhões de pessoas são afetadas por intensos processos de exclusão social: são principalmente homens, as mulheres continuam a ter mais sólidas ligações sociais, dois em cada três, têm formação superior. Barcelona e Madrid são as cidades mais afetadas, onde há histórias que acumulam processos difíceis criando uma espiral que pode levar à doença mental, dependência, isolamento e negligência. Eles estão entre nós, mas a realidade dos excluídos da sociedade é uma das mais desconhecidas para os cidadãos e para os serviços sociais. Isto perpétua o estigma que estas pessoas carregam e alimenta os mitos e o preconceito que muito temos.

Adrián Domínguez

Adrián é um fotógrafo documental espanhol, interessado nos aspetos antropológicos dos temas contemporâneos. Desde o início da sua carreira tem dado especial atenção a questões controversas, com personagens fortes. Tem formação na área da Filosofia pela Universidad Complutense de Madrid e na área da Antropologia (UNED) e tem colaborado com vários grupos editoriais internacionais como o Condé Nast, Gruner&Jahr e Hachette.
Adrián tem desenvolvido os seus projetos pessoais por todo o mundo, dando especial atenção a eventos locais. O seu trabalho está presente em várias publicações como o El País, The Economist, Esquire, VICE ou a Forbes, entre outras. As suas fotografias foram expostas desde o Japão até aos EUA e integraram inúmeros livros e coleções.

www.adriandominguez.com

Pormenor

TRABANTEN – Beyond Concrete & Sun

“Gropiusstadt” – é um arranha-céus para 45.000 pessoas, com relva e centros comerciais. De longe tudo parecia novo e muito bem cuidado. No entanto, ao entrar, em todos os lugares cheira a dejetos, dos muitos cães e crianças que lá viveram, cheiro que está impregnado nos corredores.
Foi assim que a escritora Christiane F. descreveu o lugar onde cresceu nas primeiras páginas do seu livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, que adquiriu imediatamente status de culto na Europa e desencadeou uma ampla consciência da dependência de heroína e de problemas mais amplos relacionados com as Cidades-satélite, também chamadas Trabanten-Städte.
Há cinquenta e cinco anos, em 1962, o presidente da Câmara de Berlim Ocidental e, mais tarde, o chanceler alemão Willy Brandt, lançaram as bases para um enorme projeto residencial chamado Gropiusstadt. Os planos iniciais já tinham sido desenvolvidos nos anos cinquenta, quando quiseram concentrar os antigos bairros de Neukölln e trazer “luz, ar e sol” às pessoas atormentadas pela guerra. O mundialmente famoso fundador da Bauhaus, Walter Gropius, fez o projeto com o objetivo de conectar os “numerosos elementos da vida urbana”.
Com a construção do Muro de Berlim, o espaço para novos edifícios em Berlim Ocidental tornou-se de repente ainda mais escasso. Eram necessários muito mais e muito mais altos edifícios. Em vez dos 14.500 apartamentos planeados, foram construídos quase 20.000. A cidade satélite transformou-se num deserto de cimento em vez de uma utopia urbana.
Neukölln é um dos distritos de Berlim com a maior percentagem de pessoas a receber apoios do estado. Como parte dela Gropiusstadt é, em particular, uma área socialmente sensível, pois tem uma taxa muito elevada de imigrantes, idosos e desempregados. Noventa por cento dos apartamentos foram alugados com rendas sociais. Tornou-se num dos ícones de construção mais debatidos da era moderna, não apenas na Alemanha. A utopia de cimento Gropiusstadt era agora encarada como uma espécie de pilha de lixo social. Com problemas sociais crescentes devido à reunificação das duas Alemanhas, Gropiusstadt foi cada vez mais visto como um foco de dificuldades sociais, uma área urbana desfavorecida com conflitos culturais e alto potencial de violência.
Hoje em dia, os problemas de habitação em Berlim renovam-se. O que falta na maioria das partes da cidade são casas com renda acessível. A crise da habitação é uma das questões mais críticas debatidas atualmente na capital da Alemanha. Especialmente num contexto que força a maioria das pessoas com baixos rendimentos, como estudantes e famílias jovens, a sair do centro da cidade para as periferias. Algumas pessoas acreditam que este pode ser um renascimento das cidades-satélite, alegando que poderia haver um futuro mais brilhante para os habitantes, tal como foi planeado por Walter Gropius.
O trabalho de Daniel – Trabanten – lida com questões gerais sobre a perceção externa versus realidade interior das cidades-satélite. Ele descreve a sua abordagem fotográfica como um documentário poético. Com as suas fotos tenta olhar para além das fachadas de cimento bruto, concentrando-se nos habitantes que conheceu naquele ambiente visual muito especial. Existe beleza e como pode ser descoberta? O que é que faz um lugar – apesar de sua má reputação – vivo e agradável? O que encontrou são vestígios delicados de beleza e humanidade escondidos atrás dessa espécie amplamente encarada como uma pilha de lixo social.

Daniel Seiffert

Daniel nasceu em Berlim. Em 2010, terminou o Mestrado em Ciência Política, Media e Estudos Africanos pela University Potsdam, Humboldt University Berlin e Universidade Nova de Lisboa. De 2008 a 2011 frequentou a Ostkreuz School for Photography em Berlim. Em 2011, publicou o livro “Kraftwerk Jugend”.
Desde 2005, recebeu bolsas e prémios internacionais dos quais se destaca, em 2015, o LensCulture Emerging Talent Award e o seu trabalho foi exposto em inúmeros países europeus e no Brasil.

www.danielseiffert.de

Living at the Edge of Despair

Apesar da baixa taxa de pobreza e alta taxa de emprego na Suécia, há muitas pessoas que vivem na miséria. Pessoas que estão desabrigadas, que sairam do sistema e acham difícil encontrar um caminho de volta ao normal. O principal problema é que o governo acredita que a dependência de drogas e álcool, bem como problemas de saúde mental, muitas vezes estão ligados ao chamado sem-abrigo voluntário.
Factos:
A maioria dos sem-teto tem problemas com abuso de drogas e cerca de 40% são considerados como tendo problemas psiquiátricos, uma grande proporção ainda tem um chamado “diagnóstico duplo”.
A falta de teto na Suécia é principalmente um problema urbano e na sociedade sueca é mais comumente considerado como um problema social individual. Pesquisas sobre a situação dos sem-abrigo indicam que uma proporção substancial de pessoas sem-teto tem problemas sociais adicionais, além da falta de casa. Este sistema está, portanto, fortemente ligado ao emprego e aos rendimentos do trabalho. O sistema de mercado de habitação tem uma forte ligação com os sistemas de bem-estar.
Seja qual for a causa da falta de abrigo, muitos dos afetados lutam diariamente e têm dificuldade para encontrar o seu caminho através do complicado sistema social. Recorrem a todos as estratégias para receber medicação e apoio social. O burocrático e regulamentado sistema de serviço social é tão complicado e difícil de orientar, que muitos desistem. É preciso muita coragem para dar a volta à situação em que se encontram – lutam para encontrar um trabalho permanente, sendo muitos deles solicitados para ajudar em serviços sociais. Infelizmente, muitos deles estão nesta situação por tanto tempo, que no final não veem uma saída que os conduza à vida que eles desejam.
Estes sem-abrigo sofrem altos níveis de stress devido à falta de controlo sobre a sua situação habitacional, combinada com altos níveis de pobreza e condições de vida precárias. Muitas vezes também se sentem isolados, especialmente quando o alojamento temporário que lhes é fornecido fica a uma distância considerável da comunidade local e dos seus amigos. A maioria, sente falta de suas famílias e crianças, muitas vezes separados. É uma experiência muito traumática a que é difícil escapar, e que vai deteriorando o bem-estar físico e emocional ao longo do caminho.
Graças à organização sem fins lucrativos Meeting Point, muitas pessoas em necessidade podem sobreviver, uma vez que o apoio social que recebem não cobre as despesas diárias. A Meeting Point é o lugar onde podem conhecer outras pessoas. É um lugar onde cada visitante se pode sentir igual. É como que um santuário, onde podem socializar e criar relações sem qualquer obrigação. A Organização oferece comida caseira, roupas e um lugar para relaxar, podem lavar a roupa ou dormir uma sesta. Além disso, podem também organizar noites comunitárias, Natal e outras celebrações, que os faz sentir como se estivesse em casa.
As pessoas que conheci na Meeting Point, admitem que este lugar é necessário para o seu bem-estar, que dá oportunidade de conhecer outras pessoas e ter comida e roupas, é claro. Muitos deles têm sido visitantes regulares durante de muitos anos. Embora essas pessoas tenham levado com elas as experiências angustiantes que sofreram, que levaram à sua falta de abrigo, uso indevido de drogas e álcool, ou problemas de saúde mental. Partilharam comigo as suas histórias de vida e revelaram do que sentem falta e o que desejam.
Estas pessoas são seres humanos que fazem o melhor que podem dada a situação em que se encontram. Mas sua aparência comprova a sua vida difícil. É complicado ver a falta de esperança nos seus rostos. As suas histórias de vida e até mesmo os seus olhos revelam a triste realidade do seu estado interior. A todos falta amor e compreensão, todos sentem falta da sua família e da sua casa.

Gunta Podina

Gunta é uma fotógrafa sócio documental sueca, especializada em questões sociais, culturais, antropológicas e ambientais. Com Mestrado em Fotojornalismo e Fotografia Documental pela University of Arts de Londres, Gunta visa, com os seus projetos, desconstruir as interpretações convencionais, intervindo ativamente nas questões sociais e culturais contemporâneas.
Os projetos e comissões que desenvolve estão, habitualmente, focados na nossa relação com noções de identidade, pertença e interação social.
O trabalho de Gunta Podina tem sido exposto e premiado internacionalmente, destacando-se o The Humanity Photo Award, UNESCO and HPA, China, que venceu por duas vezes, em 2013 e 2015.

www.guntapodina.wordpress.com

West London Tales

O West End é a principal zona comercial e de entretenimento da cidade de Londres. É o maior distrito central de negócios no Reino Unido, comparável ao Mid-Town Manhattan, em Nova York, ao distrito de Shibuya, em Tóquio ou ao 8º arrondissement, em Paris.
Atualmente (2015) é localização mais cara do mundo para alugar espaço para atividade comercial, escritório ou lojas, batendo sucessivamente Tokyo desde dezembro de 2013.
Contudo, artistas de rua, mendicidade e pobreza também são abundantes nas ruas de West London. O parco rendimento destes artistas de rua e destes mendigos choca com os preços dos bens colocados nas vitrines da zona e com as rendas pagas pelas grandes marcas para vender os seus produtos na área – rendas anuais de mais de 25 milhões de Libras Esterlinas são comuns.
Este é o bairro comercial mais caro do mundo; pobres são comuns na área; tentam combater a pobreza extrema com as moedas que os turistas lhes vão atirando, guiando rickshaws, desenhando no chão. Se há um lugar no planeta onde riqueza e pobreza extrema se tocam é aqui. É fácil cruzamo-nos com Arnold Schwarzenegger e com a sua comitiva de guarda-costas no mesmo passeio em que um busker toca guitarra e pede esmola.
John tem escrito várias vezes à Câmara Municipal de Westminster alertando-os para o que eles já sabem, pedindo ação para melhorar a vida destes cidadãos. Respostas evasivas, silêncios, nada mais se tem conseguido. Aparentemente, esta não é a sua Grã-Bretanha, aquela em que julgam viver é certamente outra.

John Gallo

John é fotógrafo sócio documental e divide residência entre Portugal e o Reino Unido. O foco de John está nas pessoas, na humanização do planeta e na relação com a Natureza.
Com uma longa carreira na fotografia, foi mais recentemente que se dedicou à realização de foto ensaios, fundamentalmente ligados a questões relevantes do ponto de vista socioeconómico.
John tem sido comissionado por empresas públicas, privadas, museus e organismos oficiais em Portugal e no Reino Unido e tem produzido seminários e workshops também nos dois países. O seu trabalho tem sido publicado por jornais e revistas de renome internacional, quer na Europa, quer nos Estados Unidos e tem sido premiado internacionalmente, destacando-se, recentemente, a atribuição do Joan Wakelin Award, pelo jornal The Guardian e pela The Royal Photographic Society.

www.johngallo.co.uk